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Chuva: registro de desastres foi recorde em 2022 no Brasil

O total de pessoas atingidas por desastres ligados a chuvas no Brasil e o número dessas ocorrências atingiu em 2022 seu ápice em dez anos, mostram dados do sistema da Defesa Civil Nacional.Foram 890.188 pessoas, considerando mortes, feridos, enfermos, desabrigados, desalojados e desaparecidos, 150% a mais também em comparação a 2012.Conteúdos relacionados:Sobe para 8 o número de mortos em passagem de ciclone no RS Tragédia em São Paulo já causou morte de 48 pessoas Elas foram afetadas por 2.576 registros de chuvas intensas, enxurradas, alagamentos, inundações e movimentos de massa (como deslizamentos de terra), um aumento de 402% em relação a 2012.Os dados são do S2iD (Sistema Integrado de Informações sobre Desastres), alimentado por governos estaduais e municipais.Ainda não há informações consolidadas para 2023, ano em que o Brasil, mais uma vez, viu destroçadas pelo poder de chuvas intensas cidades do litoral paulista, como São Sebastião, e do Rio Grande do Sul.Uma chuva intensa não é qualquer pancada de chuva. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), que, por sua vez, segue a Cobrade (Classificação e Codificação Brasileira de Desastres), uma chuva intensa pode ser classificada como uma precipitação “com acumulados significativos, causando múltiplos desastres”.A série histórica de ocorrências do S2iD tem início em 1991, porém, uma parte considerável dos dados é retroativa, considerando que o sistema só foi instituído por um decreto de setembro de 2012. No ano seguinte, para reconhecimento, em nível federal, de uma situação de emergência ou estado de calamidade, o uso do S2iD se tornou obrigatório.O próprio Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) só surgiu em julho de 2011, após a destruição e o enorme número de vidas perdidas por uma chuva intensa e deslizamentos atingirem a região Serrana do Rio de Janeiro.Olhando mais detidamente para a última década (considerando a criação do sistema de informações), além do crescimento visto em 2022 (de 86%), houve duas outras ocasiões com saltos proeminentes de ocorrências: de 2016 (com 566 registros) para 2017 (com 1.150) e de 2012 (com 513 registros) para 2013 (1.002).Pensando em pessoas atingidas na última década, houve picos, além do visto em 2022 (74% de aumento em relação ao ano anterior), em 2019 (214% e mais de 319 mil atingidos), 2017 (177% e mais de 306 mil atingidos) e 2013 (63% e mais de 581 mil atingidos).O aumento na frequência de eventos extremos é a prova, segundo o físico e professor da USP Paulo Artaxo, de que os efeitos do aquecimento do planeta já chegaram.”O que está previsto nos relatórios do IPCC [Painel Internacional para Mudanças Climáticas da ONU] é exatamente o que está acontecendo agora. Vemos na Líbia, no Rio Grande do Sul e na China, é um forte aumento da concentração das chuvas.”No leste da Líbia, inundações já deixaram ao menos 11 mil mortos.”Antes das inundações na Líbia, houve recorde histórico na Grécia, com 700 milímetros em 24h”, lembra o climatologista Carlos Nobre. Para ele, os registros de chuvas intensas compõem um cenário que exige respostas rápidas. “Os desastres vão continuar por muito tempo, até o fim deste século. Não sabemos o que acontecerá no próximo, mas não tem volta.”Para definir exatamente a associação entre um evento climático extremo e as mudanças climáticas, cientistas fazem os chamados estudos de atribuição. Nesses trabalhos, avaliando dados e projetando cenários com e sem os níveis atuais de carbono na atmosfera, pesquisadores conseguem estimar se e quão mais provável e/ou intenso um evento em um dado lugar ficou devido à crise climática.Em 2022, as chuvas que atingiram o Nordeste, principalmente Pernambuco, no fim de maio e no início de junho, foram estudadas. Sem o aquecimento global, os eventos ocorridos naquela ocasião seriam um quinto menos intensos, concluíram os autores.Para outros casos recentes do Brasil, ainda não há estudos divulgados.Segundo Nobre, é preciso um esforço global para cumprir as metas de redução de emissões de carbono, que considera difíceis.”Na COP [conferência da ONU sobre mudanças climáticas] de Glasgow, em 2021, todos concordaram em reduzir quase 50% das emissões até 2030, e 2022 já foi o ano com mais emissões na história.”Para o curto prazo, Nobre aponta que o desafio, especialmente no Brasil, é fazer uso da ciência pré-desastre já existente. Ex-diretor e coordenador da criação do Cemaden, Nobre diz que a tecnologia de alertas precisa de ações entre a população.”Quando há um alerta, as populações precisam estar treinadas. Funciona, por exemplo, no Rio de Janeiro. A população em áreas de risco sabe para onde ir quando há alertas ou as sirenes disparam. Temos que generalizar esses sistemas em todas as regiões, são mais de 1.300 municípios vulneráveis a desastres.”O envolvimento das comunidades, para que haja mais confiança em relação aos avisos e às respostas necessárias, também é citado como desafio por Mariana Nicolletti, coordenadora do Programa Adapta, do Centro de Estudos de Sustentabilidade da FGV (FGVces).No Cemaden, alertas de desastres passam por avaliação de uma equipe com especialistas em geologia, hidrologia e em áreas de desastres e aspectos sociais antes da emissão. Para além dos 1.038 municípios monitorados em tempo real, o centro emite um boletim diário de riscos geo-hidrológicos para todo o Brasil.”O alerta de desastre leva em conta a área que está em risco, a severidade desse risco, se há probabilidade de deslizamento e aspectos de vulnerabilidade social da população”, afirma Regina Alvalá, coordenadora de relações institucionais do órgão.Ainda, toda a comunicação de alertas, com dados técnicos, deve, preferencialmente, receber retornos das defesas civis locais, que têm informações mais precisas sobre os territórios em perigo.Segundo o coordenador de articulação política da Frente Nacional dos Prefeitos, Jeconias Rosendo Júnior, também “precisamos de linhas de financiamento com condições acessíveis e desburocratizadas para que as obras em infraestrutura possam ser viabilizadas.”Para ele, é preciso ampliar as verbas para calamidades e protegê-las de contingenciamentos. “A própria emenda constitucional que permitiu emendas direcionadas diretamente reserva 50% delas para a saúde. Talvez seja a hora de pensar em percentual obrigatório para desastres”, afirma.Na esfera federal, um grupo liderado pela PUC-Rio trabalha na elaboração de um Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil. O documento deve ser entregue, segundo decreto de dezembro de 2020, em até 30 meses.O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) publicaram na última semana um edital de R$ 12 milhões para pesquisas nas linhas de pesquisa de curto prazo para eventos hidrológicos e geodinâmicos.Já na pasta do Meio Ambiente e Mudança Climática, resolução aprovada em 14 de setembro pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima, na sua primeira reunião do ano, estabeleceu a criação de grupos de trabalho para mitigação e adaptação a eventos extremos.Para o fim do mês está previsto ainda um seminário para embasar a decisão de declarar estado de emergência permanente em mais de mil municípios considerados pelo Cemaden suscetíveis a eventos extremos.RELEMBRE DESASTRES CAUSADOS POR CHUVAS NA ÚLTIMA DÉCADA2013: Chuvas deixaram mais de 60 mil desabrigados em MG e ES2013: Dois anos depois de tragédia, chuvas voltaram a deixar mortos na Região Serrana do Rio2020: Mortes causadas por chuva intensa na Baixada Santista chegaram a 452021: Bahia registrou mais de 20 mortos na pior tempestade em 35 anos2022: Mais de duas dezenas morrem durante chuvas na Grande São Paulo

Fonte: DOL – Diário Online – Portal de NotÍcias 

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